Tráfico de Escravos

Rotas do tráfico de escravos

O comércio de escravos é antiquíssimo, pelo que a novidade que os portugueses introduziram neste tráfico foi a de lhe dar uma escala mundial, resultante do processo dos Descobrimentos que realizaram a partir do século XV. Com efeito, a escala intercontinental que deu a essa migração forçada de homens, mulheres e crianças, alterou, não apenas a escala quantitativa, mas também qualitativa do fenómeno, pois o número de pessoas transportadas nos navios negreiros pelos portugueses, e depois por outros europeus como ingleses e franceses, foi aumentando a uma escala nunca antes imaginada, vindo a atingir o seu auge no século XVIII. Esse movimento foi realizado entre várias partes de África e várias partes da América, além de, em menor escala, ter-se assistido, também, a um movimento de escravos entre a África e a Ásia e entre a Ásia e a Europa.

Depois de os portugueses terem iniciado a captura de escravos a sul do cabo Bojador, em 1441, foram de seguida alargando essa ação a vários pontos da costa africana, tendo vindo a organizar o seu comércio de escravos a partir de estabelecimentos criados na feitoria de Arguim (Mauritânia); na ilha cabo verdiana de Santiago; na ilha de São Tomé e no Congo / Angola. Era a partir daí que iam buscar escravos a várias regiões, donde se destaca as que mereceram a designação de Guiné; Costa dos Escravos (Benim e Nigéria) e Congo / Angola.

Desde 1441 os escravos foram trazidos em quantidades crescentes para Lisboa e Lagos, sendo que a partir de 1512 foram canalizados apenas para Lisboa, onde, depois, eram vendidos para várias regiões de Portugal e inclusive da Europa.

A partir do século XVI os portugueses foram aumentando o comércio de escravos africanos para o Brasil e para várias zonas da América Espanhola.

As rotas que os navios portugueses seguiram tiveram de se adaptar às condições de navegação dos veleiros, as quais foram reveladas durante os Descobrimentos.

(…) do século XV ao XVIII, no mundo ocidental, a instituição escravatura é praticamente incontestada, sendo aceite com a maior naturalidade. O tráfico de escravos é visto com menos condescendência mas não deixa de ser considerado necessário e, mediante determinadas condições, perfeitamente legítimo.

Isto não quer dizer que, ao longo desses séculos, muita gente não tenha manifestado compaixão ou mesmo indignação pela situação dos escravizados e sobretudo pela forma iníqua como se processava a aquisição de escravos e o seu transporte entre as duas margens do Atlântico.

Os próprios monarcas peninsulares puseram por vezes aos seus conselheiros laicos e eclesiásticos a questão se seria ou não legítima a forma como se realizava o tráfico de escravos.


In, Arlindo Caldeira. Escravos e Traficantes no Império Português: o comércio negreiro português no Atlântico durante os séculos XV a XIX. Lisboa: Esfera dos Livros. 2013, p. 42.