Projeto

No século XV, Portugal iniciou aquilo a que podemos chamar de tráfico de escravos a nível mundial. Se é verdade que no nosso território se praticava a escravatura desde sempre, também é verdade que é nesta altura que se inicia o comércio em larga escala e o seu desvio para o Atlântico. Os negros, capturados e comprados em África, serviam às tradições escravistas da Europa, mas eram sobretudo mão de obra necessária para a exploração das riquezas dos novos mundos encontrados.

Portugal foi um país esclavagista por mais de quatro séculos. Os portugueses, conjuntamente com os ingleses, franceses, espanhóis, holandeses (e também brasileiros e norte-americanos, etc), dominaram o tráfico negreiro, transportando um número que se calcula de cerca de 10 a 12 milhões de africanos para a Europa e América. Um crime contra a humanidade que alterou radicalmente o desenvolvimento futuro dessas regiões e das comunidades .

Lisboa foi o destino do primeiro carregamento de escravos, muito diminuto no início, mas símbolo do que se veio a tornar depois. Em 1441, chegam a Lisboa dois escravos, capturados a sul do Bojador, acontecimento descrito por Gomes Eanes de Zurara na Crónica dos Feitos da Guiné. O número de escravos negros rapidamente aumenta na cidade, passando a estar presentes em todas as casas, diferenciando-se ricos e pobres, sobretudo, pelo número de escravos que possuíam.

A presença e a herança dos negros em Lisboa e os testemunhos que a escravatura deixou na memória da cidade, foram um dos alicerces deste projeto, uma iniciativa do Gabinete de Estudos Olisiponenses, integrada na Capital Ibero-americana de Cultura. Lisboa 2017. Nascido de uma reflexão acerca dos problemas, da existência de racismo, traumas e desafios que hoje enfrentam as sociedades ibero-americanas (nas quais nos incluímos), como resultado do acontecimento trágico da história da humanidade que foi a migração forçada e escravização de milhões de africanos.


Testemunhos da Escravatura. Memória Africana


A identificação de um conjunto de museus, arquivos, bibliotecas e de outras instituições da cidade de Lisboa e a constatação da ausência explicita de narrativas patrimoniais da escravatura e das memórias africanas, foram o ponto de partida para o convite a estes equipamentos para selecionarem, nas suas coleções, peças e/ou documentação que, de uma forma direta ou indireta, se pudessem relacionar com a pessoa escravizada negra.

Estes testemunhos e heranças recuperados e resgatados, foram objeto de uma abordagem particular por parte das 42 instituições parceiras (na maioria dos casos pela primeira vez), tendo resultado na construção de novas narrativas, numa variabilidade de leituras de longa duração da história e de reflexões sobre o tema.

Mais de duas centenas de peças e documentos (do século XV aos inícios do século XX), mostrados em pequenas exposições, ou destacados nas próprias exposições permanentes, ou ainda disponibilizados apenas em linha, permitem desvendar tópicos sobre o tráfico, o combate e abolição da escravatura, as questões económicas, as vivências e os quotidianos do escravo, o racismo, a legislação, falar das tradições culturais e religiosas da presença africana e das heranças africanas, ou ainda, entre outras matérias, olhar para a iconografia do africano. Um vasto património e uma parte da nossa história controversa que se vai desvendando.

Com este projeto, que parte das representações e das novas narrativas agora construídas do que a escravatura foi no passado, pretende-se contribuir para uma consciencialização dos equipamentos culturais, bem como contribuir para a construção de uma discussão do que, ainda no presente, significa a escravatura.


Objetivos do Projeto:

- Abordar o tema da Escravatura (nesta fase da escravatura negra);

- Dar a conhecer o maior número de objetos e documentação. Uma recolha que possa vir a constituir-se, no futuro, como base de recursos alargada sobre o tema;

- Levantamento histórico de todos os factos relevantes (numa narrativa onde se insere também o ponto de vista da vitima );

- Sensibilizar os equipamentos (arquivos, bibliotecas e museus) a tratarem o tema;

- Propor novas abordagens museológicas de responsabilidade social ;

- Propor uma metodologia que parte dos problemas para as coleções ;

- Criar uma rede de memória entre equipamentos culturais;

- Fomentar um debate alargado que concilie a investigação histórica , com a visão das instituições culturais e das comunidades.