Gabinete de Estudos Olisiponenses

Conjunto de documentos relativos à escravatura e ao tráfico negreiro.


1. BLUTEAU, Rafael

Vocabulário Português e Latino, Áulico, Anatómico, Arquitectónico, Bélico, Botânico, Brasílico, Cómico, Critico, Químico, Dogmático, etc. autorizado com exemplos dos melhores escritores portugueses e latinos, e oferecido a El-Rei de Portugal D. João V. Tomo 3 (D-E). pp. 224-225 ; Tomo 6 (O-P). p. 727. Coimbra: No Collegio das Artes da Companhia de Jesu, 1712-1721.

GEO - REF 256-G RES e GEO - REF 259-G RES


Transcrição de entradas relacionadas com a escravatura:

AFRICANO. Natural de África. Afer, afra.

ALFORRIA. Liberdade, que o senhor dá a seu escravo.

BOÇAL. Negro boçal. Aquelle que não sabe outra língua, que a sua..

CABRA. Derão os Portugueses este nome a algus Indios, porque os achavão ruminando, como cabras, a erva Betel, que quasi sempre trazem na boca.

CATIVA. Mulher escrava, serva. O mesmo que cachincha.

CATIVAR. Pôr em cativeiro. Sujeitar ao jugo da escravidão.

CATIVEIRO. Escravidão. Captivitas, atis. Tirar alguém do cativeiro.

CATIVO. Prisioneiro de guerra, ou prezo pelos piratas. Feito cativo. Resgatar os cativos.

COMPRAR. Adquirir. Comprar hum escravo.

CRIOULO. Escravo que nasceu na casa do seu senhor. Galinha crioula, Galinha que não foy comprada fora.

ESCRAVA. Mulher cativa. Serva, & Fem. Cic. Ulpiam. Pequena escrava. Servula.

ESCRAVARIA. Os escravos, Servitia, Oram. Algua Escravaria de Asia, que he de gente mais vil das Provincias della.

ESCRAVIDAM. Cativeiro. Servidão. Servitus, utis.

ESCRAVO. Deriva-se do latim Sclavus, do qual fizeram os Italianos Schiavo. Outros o derivão do alemão Slave, que significa o mesmo. Na opinião de Acursio, derivasse Escravo de Esclavonia, porque dizem que naquela terra os Pays tinham faculdade de vender seus filhos. Aquelle que nasceo cativo, ou foy vendido, & esta debaixo do poder do senhor. Servus. A praça, ou a maquina de madeira, ou de ferro, como quer Scaligero, em que no tempo dos Romanos, se expunham os escravos para venda. Homens que contratão em escravos. Negotiatores mancipiorum. Senhor de muitos escravos.

FORRO. Escravo Forro. Aquelle a quem o seu próprio senhor tem dado liberdade. Manumissus. Libertus ou Libertinus. Escrava forra. Liberta.

LIBERTO. Escravo forro. Escravo que tem Carta de Alforria. Libertinus. Filho de Liberto, Vide, FORRO.

MACÛMA. No Rio de Janeiro, val o mesmo que Escrava.

MANDINGA. Reyno e povoação de Africa (Guiné), ao longo do Rio Gambea. Os negros de Mandinga são grandes feiticeiros. Parece ter derivado também para huas bolsas que trazem algus negros, com que se fazem impenetráveis às estocadas, como se tem experimentado nesta Corte, e neste Reyno, em varias occasiões.

MESTIÇO. Diz.se dos aninais racionaes, & irracionais. Animal Mestiço. Nascido de pay, & may de diferentes espécies, como Mû, leopardo, etc. / Homem mestiço. Nascido de pays de diferentes nações, v. g. Filho de Português, & de India, ou de pay Indio, & de may Portuguesa. Ibrida.

MOCAMBO. He o nome de hum dos Bayrros de Lisboa, em que as religiosas de S. Bernardo tem hum Convento. Antigamente havia neste sítio huma quantidade de casinhas de pescadores, & negros. No Brasil, chama as Aldeias de huns Negros, repartidas em choupanas, Mocambos, donde tomou este sitio o nome. Vide, Malhada.

MOCAMÃOS. São no Sertão do Brasil, huns negros levantados, a que chamão Negros dos Palmares.

MULATA. & Mulato. Filha, & filho de branco, & negra, ou de negro, & de mulher branca. Vem de Mû, ou Mulo, animal gerado de dous outros de diferentes espécies.

MULATO. Homem. Vide, MULATA.

NEGRA. Mulher natural da terra dos negros, ou filha de pays negros. Mulier Nigrita, ou nigritis orta parentibus. Vide, NEGRO.

NEGREJAR. Fazer-se negro.

NEGRIDÃO. Cor negra. Nigror

NEGRINHO. Alguma cousa negra. Hum negrinho. Hum rapaz negro.

NEGRO. Cor negra, ou tinta negra. Cousa negra. Infausto. Degraciado. Da cor negra, que he a mais escura de todas. Homem da terra dos Negros, ou filho de pays negros.

PARDO. Cor entre branco, & preto, própria do pardal, donde lhe veyo o nome. Homem Pardo. Vide, MULATO.

PRETIDÃO. Negridão. Cor negra. Nigror, oris.

PRETINHO. Negrinho. Algua cousa preta. Tirante a preto. Negro. Também val o mesmo que pequeno escravo. Preto. Servulus niger.

PRETO. Negro. Também se chama escravo preto, servus niger.

QUIGILA. Maldição, que os pays dos Negros de Angola dão aos filhos, disendo-lhes, que se comerem veado, v. g. carneiro & c., lhes dão a sua maldição (…) lhes veem humas nodoas & morrem. Aos Negros, quando os compram, se pergunta, se tem Quigila.

RESGATAR. Resgatar hum escravo. Aliquem servitio eximere. Terent.

RESGATE. O preço, ou somma de dinheyro, que se dá para o resgate de hum escravo. Também no sentido de Alforria.

TANGANHÃO. O que vende escravos, ou que enfeita mercadorias para as vender mais caras. Mango, onis. Propriamente é o que vendia escravos, mas como para os vender melhor os enfeitava, se comunicou o dito nome Mango, aos mercadores.

TRAFEGO. Deriva-se do italiano Traffico, ou do francez Trafic, que quer dizer Negocio, Commercio; porque nas praças de grande negócio, de ordinário há concurso de muita gente, com muita bulha, & muito trafego. O Trafego humano, o Trafego da vida. Vida de muyto Trafego. Trafego de gente, de mercadores.


2. Alvará de 1 de Julho de 1647

Alvará pelo qual o Rei permite aos seus vassalos, possam mandar os seus escravos às Índias de Castela, valendo a mesma Lei para todos os que se enviarem de Cabo Verde, Angola, S. Tomé e outras partes do Reino. El Rei ordena, ainda, que todos os Governadores, Provedores da Fazenda e Ministros, não embaracem as embarcações que transportam os ditos escravos e cumpram a Lei, rigorosamente.

“Pelo que mando ao Provedor dos Armazéns, faça registar este Alvará nos livros deles e tomar as fianças referidas às pessoas que d’aqui forem às ditas partes para d’alli levarem os ditos escravos às Índias, na forma que se aponta E outro sim mando ao Governador de Cabo Verde, e Provedor da minha Fazenda d’alli, que na mesma conformidade façam tomar as ditas fianças aos que forem d’aquella Ilha, e da Praça de Cacheu, ao mesmo effeito.”

In, Collecção Chronologica da Legislação Portugueza: 1640-1647. Compilada e anotada por José Justino de Andrade e Silva. Lisboa.1856, pp. 330-331. Col. Vieira da Silva. GEO - LEG 21


3. Carta de Lei de 18 de Março de 1684

Regimento da conducção dos Negros captivos de Angola para o Estado do Brazil

Informado das condições em que eram transportados os negros nos navios, que iam de Angola (mas também S. Tomé e Cabo Verde) para o Brasil “… tão apertados e unidos uns com os outros, que não somente lhes falta o desafogo necessário para a vida, cuja conservação é comuna e natural para todos, ou sejam livres, ou escravos”, D. Pedro II determinou que “d’aqui em diante se não possam carregar alguns Negros em Navios e outras quaesquer outras embarcações, sem que primeiro em todas e cada um deles se faça arqueação das toneladas que podem levar, com respeito dos agasalhos e cobertas para a gente, e do porão para as agoadas e mantimentos…”.

In, Collecção Chronologica da Legislação Portuguesa compilada e anotada por José Justino de Andrade e Silva: 1683-1700. Lisboa. Imprensa Nacional. 1859, pp. 8-11. GEO - LEG 25

Segundo o chamado regimento da arqueação:

A arqueação só poderia ser feita pelos Ministros e pelos Oficiais, designados por decreto ao Conselho Ultramarino (Cap. I) e pressupunha a medição por toneladas de todas as ditas embarcações de negros (Cap. VI);

Cada embarcação deveria levar mantimentos para 3 refeições e 1 canada de água, por dia (Cap. VII), calculando uma viagem Angola-Pernambuco, em média 35 dias, Para a Baía, 40 e para o Rio de Janeiro 50 dias (Cap. VIII);

Os que adoecessem deveriam ser tratados “com toda a caridade e amor de próximos” (Cap. X), garantindo-se um sacerdote “para nelles dizer Misssa, aos menos dias Santos, e assistir aos moribundos” (Cap. XI);

As penas para os mestres e capitães dos navios com lotação superior podiam ser pecuniárias, que podiam ir até “dous mil cruzados, e o dobro do valor dos ditos Negros, a metade das para a minha Fazenda e a outra metade para quem os denunciar” (Cap. XVIII), ou físicas, como o degredo para o “Estado da India” (Cap. XIX).

A arqueação, no sentido náutico, é a medida do volume interno de uma embarcação (relação entre a capacidade e o porte). A unidade de medida era a “tonelada”, tirada a partir do “tonel” (recipiente curvo ou arqueado). Tratava-se, portanto, de calcular quantos tonéis se podiam transportar, de forma eficiente.

Ao longo do século XVII, a questão do transporte dos escravos foi alvo de fortes críticas, sobretudo em relação ao número elevado de mortos que resultavam das longas viagens, dentro de navios negreiros sobrelotados, onde escasseavam os mantimentos e a água. Em Portugal, os monarcas mostraram-se atentos ao problema, quer pelo prejuízo económico traduzido nas taxas de mortalidade, quer pelas questões éticas e humanas que tal tratamento levantava.

Data de Março de 1684 a primeira lei, a nível mundial, a regulamentar o transporte de escravos. A ideia base era racionalizar a logística do tráfico, de modo a não se carregarem mais navios negreiros sem que antes se fizesse a arqueação das toneladas que cada um podia levar, incluindo os agasalhos, a água e os mantimentos necessários à sobrevivência de todos os cativos e da respectiva tripulação. Ainda que os cálculos não sejam fáceis de fazer, alguns historiadores estimaram, num valor aproximado, que um navio de 80 toneladas poderia transportar entre 200 a 400 escravos.


4. Alvará de 1 de Abril de 1702

Autorização régia aos “homens pretos da Confraria de Nossa Senhora do Rosário de S. Salvador, desta Cidade” para “que podessem, com suas vestes, e Imagem da mesma Senhora, tirar esmolas aos Domingos pelas ruas, por serem pobres”. O alvará de D. Pedro II proibia ainda os senhores de “venderem para fora do Reyno algum escravo” e permitia que a Confraria os comprasse por um preço justo (“por sua justa avaliação”). Com a duração de um ano, vinha confirmar os anteriores alvarás, nomeadamente o de 22 de Fevereiro de 1688.

In, Collecção Chronologica da Legislação Portuguesa: 1683-1701: 1701-1702 / compilada e anotada por José Justino de Andrade e Silva. Lisboa: Imp. de J. J. A. Silva: Imp. F. X. de Sousa. 1859, p. 27. GEO - LEG 25-A

Sob o impulso dos Dominicanos, o culto medieval de Nossa Senhora do Rosário (séc. XIII) expandiu-se pela Europa ocidental, ao longo do século XV, com o objectivo de evangelizar a população pagã.

Em Lisboa a devoção do Rosário (ou do Terço) permitiu o aparecimento das primeiras irmandades do Rosário, composta de homens brancos. A permeabilidade inicial dos estatutos e a chegada de africanos à capital permitiu a integração paulatina de cativos, escravos e libertos. Segundo alguns autores, o sucesso das irmandades de negros baseou-se, inicialmente, no desejo de beneficiar de uma sepultura decente; o fato de pertencer a uma delas afastava a perspetiva de ser lançado entre os detritos ou permitia escapar à vala comum.

Com sede e capela no Mosteiro de S. Domingos, a Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, como também era conhecida, tornou-se numa das mais populares, a par das do Santíssimo Sacramento, das Almas e da Guadalupe.

A convivência entre irmãos negros e brancos nem sempre foi pacífica; o poder real, em particular D. Manuel I, atribui privilégios de natureza financeira e social que reforçavam os fracos direitos dos escravos e libertos (no caso, a eleição para lugares chave da Mesa da Confraria e a alforria, em caso de abusos), mas entravam em conflito direto com os respectivos donos. As divergências tornaram-se irreconciliáveis. Em 1565 a ala branca (dita “honrosa”) criou estatutos próprios que impediam, entre outros, o acesso dos irmãos negros a cargos de responsabilidade. Em 1646 a ala dos “pretos e forros” foi expulsa do mosteiro dominicano e os seus membros refugiaram-se em duas confrarias quinhentistas: na de “Jesus Maria José”, da Igreja do Carmo e na do “Rosário dos Homens Pretos”, de Évora. A dispersão da devoção dos negros acabou por permitir a criação de irmandades noutras igrejas da capital, nomeadamente na do convento dominicano do Salvador.


5. Lei e Pragmática de 27 de Abril de 1751

“Lei, e Pragmática, por que Vossa Magestade há por bem prohibir o luxo, e excesso dos trages, carruagens, móveis, e lutos, o uso das espadas às passoas de baixa condição, e diversos outros abusos que necessitavam de reforma.”

Lei / Pedro da Mota e Silva. - Lisboa: [s.n.], 1749, pp. 6-7. Col. Vieira da Silva

GEO - LEG 88

A Pragmática de 24 de Maio de 1749 proibia, a negros e mulatos, o uso de roupas de sedas e algodões finos, jóias de ouro ou prata, sob pena de lhes ser tudo confiscado, podendo, mesmo, numa primeira transgressão, serem penalizados a pagar o valor atribuído aos bens a confiscar. Não tendo como pagar poderiam ser açoitados no local mais público da Vila onde residiam e, posteriormente, deportados para a Ilha de São Tomé.

“Por ser informado dos grandes inconvenientes, que resultarão das conquistas da liberdade de trajarem os negros e os mulatos, filhos de negro ou mulato, ou de mãe negra, da mesma sorte que as pessoas brancas, prohíbo aos sobreditos, ou sejão de hum ou de outro sexo, ainda que se achem forros, ou nascessem livres, o uso não só de toda a sorte de seda, mas também de tecidos de lãs finos, olandas, elguiões, similhantes, ou mais finos tecidos de linho, ou de algodão, e muito menos lhes será licito trazerem sobre si ornato de jóias, nem de oiro ou prata, por mínimo que seja.” (Cap. IX)

Também por esta Lei e Pragmática se legislou quanto ao uso de armas para pessoas de baixa condição e negros. Na desobediência a estas leis, a pena consistia no pagamento de dez mil réis e de dois meses de prisão, numa primeira transgressão e no dobro da pena pecuniária e num ano de prisão, acrescida da perda de espada e espadim, numa segunda transgressão.

“Para evitar os homicídios, ferimentos, e brigas, a que dá ocasião o trazerem espada, pessoas de baixa condição, ordeno que não possão trazer estas armas aprendizes de officios mecânicos, lacaios, mochilas, marinheiros, barqueiros e fragateiros, negros e outras pessoas de igual ou inferior condição sob pena de perdimento de espada ou espadim, de dez mil réis, e de prizão…” (Cap. XIV)

A Pragmática é toda a legislação que regulamenta, limita e proíbe, certas práticas relativas aos costumes, modos de vestir e outros assuntos, relativos a cada classe social. A mais antiga legislação deste tipo é do século XIV, do reinado de D. Afonso IV.

Deste modo, as pragmáticas, impunham moderação no luxo, nos adornos das vestimentas, para homens e mulheres, nos objectos de decoração doméstica, como o excesso de espelhos, cristais e mesmo mobiliário, nas carruagens luxuosas. Tinham o seu principal objectivo na moderação dos gastos.

Esta legislação foi aplicada, também nas colónias, especificando, inclusive, o que negros e mulatos deviam usar, já que estavam impedidos de trajar como os brancos.

As transgressões às pragmáticas eram punidas com multas pecuniárias, prisão e até degredo. Não se aplicaram, nem às igrejas, nem ao culto divino.

Neste caso específico, todos os ornatos e gastos eram permitidos para a sua magnificência.


6. Alvará de 5 de Outubro de 1758

“Alvará com força de ley porque V. Majestade ha por bem declarar e ampliar o Regimento, porque novissimamente foi servido regular os emolumentos dos Ministros e Officiaes de Justiça do Estado do Brasil quanto a formar cada um dos Ouvidores das respectivas Comarcas hum arbitramento para o sustento dos Escravos prezos, conforme os preços dos géneros, que servem de alimento nas terras; determinando as porçoens que os Carcereiros deverão dar a cada hum dos sobreditos prezos, em quantidades, e qualidades certas, debaixo das penas, e declaraçoens assima mencionadas.”

In, Collecção Chronologica da Legislação Portugueza / Thomé Joaquim da Costa Corte Real. 1758, p. 1. Col. Vieira da Silva

GEO - LEG 69

Por este Alvará com força de Lei, El Rei D. José determina a quantidade e a qualidade do sustento que cada carcereiro deve dar aos escravos cativos nas suas prisões. A não observância desta Lei levava, numa primeira transgressão, à suspensão do ofício de por três meses; numa segunda, a pena subiria para seis meses de suspensão e, à terceira vez, o carcereiro seria proibido da prática deste ofício ou de qualquer outro ligado à Justiça ou à Fazenda.

“E sou informado que os ditos carcereiros além de reduzirem o sustento dos referidos escravos a huma pequena porção de milho cozido, em que só fazem de gasto vinte réis cada dia; costumão servir-se deles, mandando-os, contra a disposição das minhas Leys, sahir das prizoens, metidos em correntes para hirem aos matos, e campos buscar-lhes lenha, e capim, para venderem; seguindo-se daquela deshumanidade na falta de sustento, e da transgressão com que fazem sahir os mesmos Escravos das cadêas, fugirem elles das correntes, e ficarem assim perdendo-os seus donos, a a justiça sem satisfação, quando os mesmos Escravos têm cometido crimes


7. Anúncio de fuga de escravo

“Na madrugada de terça feyra 13 do corrente fugirão do Convento de Santa Clara de Santarém huma preta, & huma mulatinha, deyxando roubadas a suas senhoras muyta roupa, & prata de uso, & se supõem vierão com huns pretos pera esta Corte. Quem tiver noticia delles, ou dellas, se lhe pede que queyra segurallos, & dar parte ao P. Porteyro de S. Francisco da Cidade, ou em Santarém às Religiosas do ditto Convento, & se lhes pagarão os gastos, & darão alviçaras. E todo o Ourives, ou qualquer pessoa a quem se vier vender prata, ou roupa suspeyta, se lhe pede, & queyra segurar ate se verificar, aliás se hade tirar Carta de excomunhão.”

In, Gazeta de Lisboa Occidental. Lisboa: Officina de Pascoal da Sylva, N.º 29, 22 de Julho de 1717, p. 228. GEO - PP 672.1


8. Anúncio de fuga de escravo

“A Francisco Roberto morador à Pampulha fugio em 27 de Novembro passado hum Negro chamado Antonio, Mina de naçam, bem feito, sem barba, com hum dente menos da parte de cima, e de dezoito annos de idade. Sabe ler, e tocar trombeta. Toda a pessoa, que delle tiver noticia, ou o mandar prender em qualquer parte do Reino, promete seu senhor, pagar-lhe muito bem a diligencia.”

In, Supplemento da Gazeta de Lisboa Occidental. Lisboa: Officina de Pascoal da Sylva, N 51, 19 de Dezembro de 1743, p. 1020.

GEO – PP 672.4

“A Pedro Erence, Capitão Irlandez, morador na Rua das Flores desta Cidade, fugio há poucos dias hum índio preto natural de Bengala, seu cativo, de estatura mediana, cara larga, bexigoso, cabelo comprido, & corredio, chamado Joseph, de edade de 22 annos. Tem (sic) carta de excomunhão para quem souber delle lho descubra; qualquer pessoa que lho traga a sua casa, ou de Patricio Nollem, morador na mesma rua, se lhe darão boas alviçaras.”

Gazeta de Lisboa, N.º 10, 11 de Março de 1717, p. 76. Hemeroteca Municipal de Lisboa

Data de Março de 1717 o primeiro anúncio na Gazeta de Lisboa de um negro escravo fugido a seu dono. Este tipo de notícias, que surgiam nos periódicos da época (Hebdomadário Lisbonense, Correio Mercantil e Económico de Portugal, entre outros), traduz uma realidade que fez parte do quotidiano da capital e demais províncias do antigo Império – a fuga à condição de sujeição de escravidão e a tentativa de recuperação da mercadoria perdida, por parte dos donos. Juntamente com os anúncios de aluguer (“negros de ganho”) e vendas, os de fuga de escravos constituem documentos ricos do ponto de vista histórico e económico, mas também social, antropológico e cultural, por fornecerem dados relativos aos proprietários, mas, também, descrições pormenorizadas dos indivíduos evadidos, como sejam os seus traços físicos e a indumentária usada à data da fuga. Terminavam, geralmente, com a indicação do local da entrega e a promessa de uma recompensa a quem os encontrasse.


9. O Alfacinha: revista humoristica ilustrada

“O Protector das Colónias”, Ilust. Joaquim Costa O Alfacinha: Revista Humorística / Prop. Empreza Horas de Viagem, Il. Joaquim Costa; red. Urbano de Castro. A 1, N 5, 28 de Setembro de 1882, p. 40. GEO- PP 194.1

O periódico humorístico O Alfacinha teve como redactor Urbano de Castro e ilustrador Joaquim Costa. No número 1, de 26 de Agosto de 1882, os autores esclarecem o público sobre o programa de intenções, que se podia “dividir em três partes – quanto à política, quanto à litteratura e quanto aos costumes”. Publicou-se até outubro desse ano.


10. ALFAMA. Salvador. 1 de Outubro. "Carta, que escreveo o rey Angola ao Rey Mina, convidando-o para a festa do 1 de Outubro." "Seoro compadra Re Mina Zambiampum taté: sabe vozo, que nossos fessa sá Domingo, e que vozo hade vir fazer os forgamenta: oya vussè não falta vusè compadra, que as may Zoana os fia dos pay Maulicia, e dos may Zozefa sa biscondeça dos taraya: nos procissão hade vozo cantar o Zaramangoè, e traze vussè nos sorfa que os pay Zosè nos fezo os cutambala, cuzambala cuyè numas minueta; agora se vozo vem zangana se não vem zangana vussè homo Zambiampum tatè muitos ano. Pay Simão Re Angola" (Folheto de Ambas Lisboas, N.º 7, 6 de Outubro de 1730, pp. 4-5.)

In, Folheto de Ambas Lisboas. Lisboa Occidental, Na Officina da Musica, 1730-1731, p. [250]. Col. Vieira da Silva, VS 1388/D2.

GEO - MISC 59 RES

Atribui-se a Jerónimo Tavares Mascarenhas de Távora (n. 1708/1710- f. 2ª met. XVIII), a composição de uma espécie de gazeta, ou periódico joco-sério, que se publicou na primeira metade de Setecentos, sob o título de Folheto de Ambas Lisboas. Formado em "Cânones" pela Universidade de Coimbra, o autor veio para Lisboa onde seguiu advocacia; entrou depois na magistradtura e foi nomeado Juiz de Fóra, em Marvão. Sócio das Academias dos Juvenís, e dos Applicados, ficou célebre pelas poesias que compunha e por ter sido um dos primeiros "jornalistas" humorísticos do seu tempo. Escreveu, também, sob o pseudónimo de "Mariana Antónia Botade".


11. Relaçam Preta de huma festividade branca

ou (mais claro) retrato em papel branco por hum pinsel de azeviche e delieação do aplauso dos seis dias de Touros que estão proximos a cair, ou propincos a execurem-se na Praça de S. Anna, desta Corte de Lisboa. Formado pelo pacifico genio do Grande Manoel Coco, oriundo de huma zona torrida, ou compatriota da Costa da Mina, ou Cítios das Minas do Oiro Preto: perpetuo sorvedoiro da tabaquistica-pitada, e natural Cantor mor, da mais destemperada Musica; e prompto exercitador dos mais destemperados gorgomilos.

In, Relaçam preta, de huma festividade branca ou, mais claro: retracto em papel branco por hum pinsel de azeviche e delineação do aplauso dos seis dias de touros, [...]. - Lisboa: Na Oficina de Caetano Ferreira da Costa, 1797.

Col. Vieira da Silva, VS 1375/D2. GEO - MISC 66 RES

Os negros ocuparam um lugar de destaque nas praças de touros, onde, para além de encarregados da limpeza da arena e dos curros, foram utilizados como figuras de séquito, elementos indicadores de grandeza e artistas de entretenimento.

No Campo de Santana correram-se touros e fizeram-se touradas, pelo menos desde o século XVII, mas a primeira praça data de 1831; ocupou o lugar do atual edificio da Faculdade de Ciências Médicas (Campo Mártires da Pátria) até 1889, quando foi demolida.


12. Itinerario Lisbonense ou Directorio Geral de todas as Ruas, Travessas, Becos, Calçadas, Praças, etc. que se compreendem no recinto da Cidade de Lisboa com os seus próprios nomes (…), para utilidade, uso e commodidade dos Estrangeiros, e Nacionaes.

Lisboa: Impressão Regia, 1804, p. 137. GEO – TOP 60-P RES


13. Esboço da planta de Santa Catarina e Mercês

Gustavo de Matos Sequeira

[material cartográfico]: Bairro de Jesus, Poiais de São Bento e Poço dos Negros / des. Matos Sequeira.

[Lisboa: s.n., s.d.] - 1 planta: color; 32 x 43 cm.

(Arquivo Matos Sequeira). GEO - P/GMS 8

A referência mais antiga conhecida da "Rua do Poço dos Negros” remonta a 1681 (Sequeira, 1967: 43). O arruamento foi em tempos Rua que vai para a Esperança abaixo do Poço Novo (c. 1639), Rua direita que vai da Esperança para a Calçada do Combro (1576) e Caminho das Portas de Santa Catarina para Santos (1515). No percurso ficava o sítio da Cruz, onde terá existido uma cruz, sensivelmente no cruzamento das atuais ruas Caetano Palha e Poço dos Negros, que é muitas vezes confundida com a Cruz da Esperança, a qual ficava mais abaixo, no adro da Esperança.

O topónimo tem sido relacionado, com alguma frequência, com o sepultamento de escravos negros num poço, situável junto ao "monturo, que está junto da Cruz que está no caminho que vai da porta de Santa Catarina para Santos" (Livro 1º do Provimento da saúde, fl. 51, cit. Oliveira, 1885, 509-510). A relação entre o arruamento e o dito poço teve por base uma determinação de D. Manuel I, datada de 13 de Novembro de 1515, onde o monarca pedia ao Senado de Lisboa que se fizesse, com urgência, "um poço, o mais fundo que pudesse ser, no lugar mais convinhável e de menos inconveniente", onde se lançassem os ditos corpos, que seriam, de vez em quando, cobertos de cal viva (Livro 1º do Provimento da saúde, fl. 51).

A “Planta de Lisboa para Ocidente da Muralha Fernandina”, um desenho dos finais do século XVI (Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Cart 1044544), assinala com rigor a “Cruz” no caminho entre a Porta de Santa Catarina e Santos.

Não se sabe se o poço manuelino chegou, efetivamente, a ser construído; certo é que o "Poço dos Negros" se fixou na toponímia local, fosse pela existência física de um espaço sepulcral, fosse pela proximidade de um poço de água potável do Convento de São Bento, cujos religiosos eram conhecidos, também, como monges Negros. Escavações arqueológicas no sítio poderiam ajudar a esclarecer a polémica e trazer alguma luz ao assunto.


Seleção de peças e textos: Elisabete Gama e Manuela Canedo

Apoio à pesquisa: Ana Homem de Melo


Relaçam Preta de huma festividade branca

Gabinete de Estudos Olisiponenses

Peças e Documentos

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