Museu Nacional de Arte Contemporânea


Dava-me cuidado não ver o meu moleque Catraio, que comecei a supor teria sido feito prisioneiro, quando ele me apareceu na barraca, com o seu riso inteligente e velhaco, trazendo nas mãos os meus cronómetros, que tinha ido à outra margem à minha mala buscar, enquanto os Malacas nos cercavam e ameaçavam. Mais uma vez Catraio impedia que os cronómetros parassem por falta de corda.

In, Serpa Pinto. Como eu atravessei África, 1881.


Os pretos de Serpa Pinto

Miguel Ângelo Lupi (Lisboa, 1826- Lisboa, 1883)

1879

Óleo sobre tela; 128 x 91

MNAC-MC 788

Créditos Fotográficos: DGPC/ADP/Carlos Monteiro


Catraio e Mariana acompanharam Serpa Pinto numa expedição científica ao centro africano, em 1877, depois da separação dos exploradores Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens por divergências políticas quanto à alteração de percurso por Serpa Pinto que pretendia alcançar Moçambique e o domínio efetivo de uma área vasta.

Serpa Pinto procurava “um moleque inteligente e ladino” e Catraio rapidamente aprendeu a identificar todos os seus instrumentos e livros, numa época de início do abolicionismo. Mariana destacava-se no grupo de expedicionários e avisou Serpa Pinto de uma traição. Reconhecido, presenteou-a com um colar de missangas que ostentava no retrato de Lupi, assim como apresentava o seu sorriso franco, admirado por Catraio.

Em finais de 1879, já em Lisboa, eventualmente por encomenda de Serpa Pinto, Catraio e Mariana posavam para este retrato a óleo, de dimensões consideráveis. Provavelmente foi tirada uma fotografia como auxiliar técnico da pintura, pois os gestos eram rigorosos e a postura encenada em atelier. Tratava-se de uma nova representação étnica através do retrato de pose. O traje de Catraio, em soltas pinceladas aditivas, de vermelhos e verdes, distinguia-se pelo seu caráter inacabado, moderno na indefinição das linhas e sombras. A observação psicológica, característica dos retratos de Lupi, combinava com um esquema cromático próximo de Mariano Fortuny (1838-1874) em Odalisca, 1861, sugerido nos timbres escuros da pele e contrastantes com as luminosas riscas de tonalidades ocre do pano de Mariana, sensualmente traçado.


Texto: Maria de Aires Silveira

Seleção de peças: Aida Rechena

Os pretos de Serpa Pinto

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