Museu de Lisboa. Palácio Pimenta


1. Painel de azulejos

Autor desconhecido

Século XVIII

Faiança

Museu de Lisboa. Palácio Pimenta. Inv. ML.AZU.1152


Este painel de azulejos representa uma mulher negra, com grande probabilidade uma escrava, a amanhar vários peixes e sendo acompanhada por um gato. Ele fez parte de um edifício na zona da atual Praça Martim Moniz (freguesia de Santa Maria Maior), onde se encontrava a servir de revestimento da parede interior de uma chaminé. Não era esse o seu local de origem, uma vez que já estava desprovido da parte inferior, sendo de presumir que os pés da mesa tivessem continuidade e que a figura estivesse representada de corpo inteiro.

O uso de escravos para serviço de apoio nas cozinhas dos solares nobres vinha de longe, constituindo já a maioria da população dedicada a este serviço nos finais do século XVI. Ao longo do tempo, a população escrava tornou-se essencial em todas as atividades urbanas, salientando-se os carregadores nos portos ou carroceiros entre a cidade e o campo. Parte dos escravos foi incorporada em ofícios domésticos, como sapateiros ou pedreiros, tratando-se de homens, e de calhandreiras ou cozinheiras, no caso das mulheres.

A obra, datável do século XVIII, contraria a tendência que dominou a azulejaria barroca lisboeta, tantas vezes reduzida ao uso do azul e do branco, aliado a um extremo rigor do desenho. Aqui, introduziu-se uma cor escura para vincar a natureza negra da figura humana, reforçando assim o estatuto da cozinheira escrava, para lá das evidentes feições negroides.

O painel foi incorporado nas coleções museológicas da Câmara Municipal de Lisboa na década de 60 do século XX e a sua forma atual foi conferida em 1978, por ocasião da exposição O Povo de Lisboa. À cena central acrescentou-se então uma fiada de azulejos de figura avulsa. Em 1984, aquando das obras de recriação de parte do piso térreo do Palácio Pimenta como ambiente de época barroca, o painel foi integrado no revestimento azulejar da renovada cozinha, assumindo posição de destaque nas paredes desta dependência.


2. Terreiro do Paço no Século XVII

Dirk Stoop, 1662

Óleo s/ tela

Museu de Lisboa. Palácio Pimenta. Inv. MC.PIN.261


Deve-se ao pintor Dirk Stoop (c. 1610 – c. 1686) uma das mais importantes vistas do Terreiro do Paço no século XVII. A obra foi identificada como possível representação da chegada a Lisboa de D. Francisco de Mello e Torres, 1.º Conde da Ponte e embaixador extraordinário de Portugal em Londres, onde negociou o Tratado de Whitehall (23 de junho de 1661) e ultimou as negociações para o casamento de D. Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra.

A pintura contém uma narrativa dos momentos-chave que precederam a partida da infanta. Na multidão que ocupa o Terreiro do Paço, D. Catarina passa despercebida, apesar de ocupar o centro da composição: nas imediações da fonte de Apolo, passeia com a mãe, D. Luísa de Gusmão, e com uma dama de companhia, possivelmente a monja D. Isabel da Madre de Deus. Maior destaque recebeu o conde D. Francisco de Mello e Torres, retratado no interior do coche e ostentando na capa a cruz da Ordem de Cristo. Atrás dele, segue um grupo de cavaleiros da mesma ordem e, no lado direito, a guarda real presta honras à sua chegada. Junto ao rio, representa-se o embarque do dote da infanta, supervisionado por ingleses.

A visão fornecida pelo pintor salienta o carácter multifuncional do terreiro, onde se cruzavam pessoas de todos os estratos sociais. À frente do chafariz, dois homens lutam, enquanto as bilhas que transportavam se encontram estilhaçadas no chão e perante a indiferença da rainha e da infanta, que se encontram mesmo ao lado. O primeiro plano foi, contudo, reservado para a um par de homens jovens, galantemente vestidos. Um deles, branco, com capa e chapéu, olha diretamente para o observador e está alheado da chegada do conde. É acompanhado por um negro, igualmente de chapéu e com espada à cintura, que parece mais atento à chegada dos homens de D. Francisco. Ambos, porém, seguem o seu caminho, na direção oposta ao coche do conde. É possível que se trate de um senhor com o seu escravo. Este, por razões de prestígio social da família a que pertence, traja na prática como o seu proprietário.


3. Nossa Senhora das Mercês

Autor desconhecido

Século XVIII (2ª metade)

Mármore

Museu de Lisboa. Palácio Pimenta. Inv. MC.ESC. 0287


De provável origem italiana, a imagem de Nossa Senhora das Mercês pertenceu à capela do Palácio Pombal, em Oeiras, e deve ter sido encomendada pela família de Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), conde de Oeiras (1759) e marquês de Pombal (1770), para figurar no altar-mor da capela privada daquele paço. Nossa Senhora das Mercês era padroeira da família Carvalho desde o século XVII. A capela foi concluída em 1762 e integra espólio artístico datado daquela década e da seguinte, pelo que é de presumir que a imagem tenha chegado a Oeiras para engrandecer aquele espaço. Nos inícios do século XX, a imagem foi transferida pela família para o palacete Pombal em Lisboa, onde Irisalva Moita a encontrou em 1968, ano em que a propriedade foi adquirida pela Câmara Municipal de Lisboa. Na capela do palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras, exibe-se hoje uma réplica.

De tradição medieval, Nossa Senhora das Mercês foi padroeira dos cativos cristãos em território islâmico, sobretudo mercadores e marinheiros. A partir do século XV, o seu culto tornou-se mais abrangente, sendo reconhecida como padroeira dos escravos, razão pela qual é representada com uma corrente ou uma grilheta nas mãos ou aos pés. No caso da imagem do Museu de Lisboa, a graciosidade tardo-barroca colocou a corrente nas mãos de um anjo, assim libertando a Virgem para uma atitude maternal, dirigindo-se diretamente aos fiéis e exibindo o escapulário protetor, símbolo que adquire maior visibilidade, em detrimento da discreta corrente.


Seleção de peças e texto: Paulo Fernandes

Painel de azulejos

Museu de Lisboa - Palácio Pimenta

Peças e Documentos

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