Museu Bordalo Pinheiro

A escravatura foi alimentando, ao longo dos séculos, um conjunto de preconceitos, modelos de comportamento e de atitudes discriminatórias pela população negra que esteve na base da desvalorização das culturas africanas e do africano e, a partir de Oitocentos, na construção e consolidação do racismo - ao qual não foram estranhos interesses políticos e económicos sobre os territórios africanos. (Gabinete de Estudos Olisiponenses)


Moringue “Gungunhana”

Marcado: “FFCR”

1897

Barro vidrado

Museu Bordalo Pinheiro

Moringue antropomórfico representando Mudungazi, o último rei de Gaza (região de Moçambique) que subiu ao trono com o cognome de Gungunhana (o “terrível” ou o “invencível”), nome pelo qual ficaria conhecido.

A sua captura por Mouzinho de Albuquerque em dezembro de 1895, no contexto das campanhas militares de ocupação e pacificação desses territórios, está na origem da execução desta obra.

Recuperando o modelo da olaria popular, este moringue ou bilha de dois gargalos, apresenta o régulo curvado em pose de submissão. A cabeça coroada dá forma a um dos orifícios e a pega, imitando uma corrente, alude diretamente ao seu aprisionamento. O corpo da bilha, de cor verde, corresponde ao corpo da figura de onde saem duas pequenas mãos de punhos cerrados. O conjunto assenta sobre os pés da figura onde os tornozelos estão decorados com pulseiras coloridas.

Bem ao espírito do período, Rafael Bordalo Pinheiro realizou diversas obras em cerâmica representando o Gungunhana, adaptando com troça e humor a sua fisionomia à forma de bilhas, cantis e garrafas. Também deu notícias da sua captura e reações consequentes no jornal “O António Maria” de 1896, em desenhos entusiásticos em que se autorrepresenta e publica textos de crítica de costumes onde o régulo é ridicularizado de forma impiedosa por Esculápio (Eduardo Fernandes).

Gungunhana chegou a Lisboa a bordo do transporte “África” na madrugada de 14 de março de 1896, após dois meses de viagem desde Lourenço Marques. A sua captura, no rescaldo do Ultimatum Britânico veio reacender o espírito patriótico nacional e a sua chegada à capital foi recebida com demonstrações populares e festejos. A prisão deste importante régulo africano pretendeu assegurar o domínio português na África Oriental e garantir, aos olhos das restantes potências europeias concorrentes na partilha de África, a ocupação efetiva desses territórios conforme acordado na Conferência de Berlim de 1885.


Coordenação: João Alpuím Botelho / Museu Bordalo Pinheiro

Seleção de peças e legendas: Mariana Caldas de Almeida

Créditos Fotográficos: Cláudia Freire

Museu Bordalo Pinheiro

Moringue Gungunhana

Peças e Documentos

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