Casa-Museu Medeiros e Almeida

A coleção da Casa-Museu Medeiros e Almeida é uma coleção muito heterogénea, não só na tipologia das peças que a constituem (escultura, pintura, joalharia, ourivesaria, porcelanas, têxteis, mobiliário,…), como também na própria cronologia, origem ou temática das mesmas. Entre todas as peças do acervo exposto escolhemos estas duas – um par de figuras de negros e um painel de azulejos – para fazer parte do projeto Testemunhos da Escravatura, por serem aquelas que mais diretamente se enquadram dentro desta matéria, apesar de poderem existir outras peças que, de forma menos evidente, abordem este assunto.

A escravatura existiu, com particularidades muito diversas, ao longo de toda a história e em quase todas as culturas; porém, as representações de escravos na Casa-Museu Medeiros e Almeida não correspondem à imagem dita "tradicional" a que geralmente estamos habituados, e que, tendencialmente, consiste nos escravos africanos a serem enviados como força de trabalho para as colónias. Durante o século XVIII existiu na Europa uma “domesticação” da escravidão, sendo que a fronteira que separava serventes livres e escravos era propositadamente ténue. Muitos deles eram vestidos de forma elaborada e uma das suas funções era serem “objetos” exóticos, raridades para ser exibidas, grosso modo, "divertimentos". Tanto assim era, que por toda a Europa encontramos retratos de personagens da alta sociedade que se fazem representar com os seus criados negros, muitas vezes crianças, o que era considerado como um símbolo de status.

As peças da Casa-Museu Medeiros e Almeida, com proveniências muito diferentes, estariam provavelmente ambas destinadas a locais de acolhimento: entradas de palacetes, acesso a salões, …, sendo que as figuras representadas, os escravos ou servos, teriam como função receber o visitante oferecendo a sua melhor imagem e com esta, reforçar a imagem e a posição do senhor da casa.


1. Painel de azulejos

Portugal, séc. XVIII

Faiança vidrada

Alt. 123 cm. / Comp. 374,5 cm.

FMA 1435

Embora não exista registo da proveniência original deste painel, a atitude e caracterização das figuras levam-nos a pensar nas figuras de convite tão próprias dos palácios e casas nobres do século XVIII, onde também era frequente, nas entradas ou patamares de escadas, existirem painéis com galerias de personagens numa encenação do ritual de receção, numa altura em que a sumptuosidade da etiqueta tinha grande importância.

No primeiro plano encontramos duas figuras, dois criados com a típica casaca com bolsos de pala recortada adornada com três botões, enfrentando um cão. A primeira personagem, com cabeleira comprida e encaracolada, olha para o visitante e indica o caminho a seguir, numa gestualidade intrínseca às referidas figuras de convite; poderá tratar-se de um anão, sendo que à época os escravos anões eram muito apreciados por serem considerados uma extravagância, tal como a conhecida anã Rosa, favorita da rainha D. Maria. A segunda personagem será um servo/escravo negro, o que não era raro no Portugal do século XVIII, onde eram estimados como curiosidade a mostrar.


2. Figura de negro (par)

Itália, séc. XVIII (?)

Mármore branco de Carrara, mármore amarelo, alabastro e lápis-lazúli

Alt. 130 cm. / Comp. 50 cm. / Larg. 50 cm.

Inv. FMA 753 / FMA 754

A representação de figuras de negros (termo que na Europa abarcava qualquer pessoa de pele escura) tem uma longa tradição na história das artes decorativas europeias, nomeadamente na Itália de finais do século XVII e durante todo o século XVIII e XIX. Estas figuras eram realizadas frequentemente aos pares, independentemente de serem cabeças, bustos ou esculturas de corpo inteiro, e muitas vezes apareciam em exuberantes e complicadas poses. Por vezes, para além da sua faceta decorativa, tinham uma vertente utilitária segurando luminárias ou pequenas bandejas que serviam de mesa.

No caso do par de negros presentes na coleção da Casa-Museu Medeiros e Almeida é de destacar a cuidada escolha dos materiais, de modo a conseguir um acentuado contraste entre as diferentes superfícies e tonalidades, algo que era comum neste tipo de peças que pretendiam realçar o exotismo das figuras. Estas esculturas foram provavelmente pensadas para ser colocadas em ambos os lados de uma porta (tal como as podemos ver atualmente) à semelhança de como estariam os próprios lacaios que representavam.

Painel de azulejos, séc. XVIII

Casa Museu Medeiros e Almeida

Peças e Documentos

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