Terreiro do Paço

LOCAIS DE ORIGEM, CHEGADA A LISBOA (SÉC. XV - XIX)

O escravo foi uma figura incontornável em Lisboa entre os séculos XV e XIX, e o seu desempenho foi fundamental no pulsar urbano desses tempos.

O africano de origens étnicas, geográficas, religiosas e antropológicas diversas dominou o quadro da escravidão, que também se compunha de mouros, índios, orientais, pardos ou mestiços provenientes dos quatro cantos do mundo.

O fenómeno da escravatura em Lisboa é anterior ao século XV, mas foi a expansão marítima e a articulação ao comércio da costa ocidental africana que gerou tamanha abundância na cidade.

Capturados no interior do continente, eram vendidos em feiras (pumbos) e conduzidos e reunidos em vários pontos da costa ocidental africana e nas ilhas atlânticas de Cabo Verde e S. Tomé. Daí partiam para Lisboa, em grandes contingentes, numa travessia que para muitos foi fatal.

A CHEGADA DOS PRIMEIROS ESCRAVOS NEGROS (SÉC. XV - XVI [1514])

Em 1441, chegaram à Ribeira de Lisboa os primeiros cativos africanos, vindos de terras a sul do cabo Bojador. Tinha início um longo processo de migrações forçadas que os portugueses incrementaram a uma escala intercontinental entre a África, a Europa e a América.

O TERREIRO DO PAÇO E O PAÇO DA RIBEIRA (SÉC. XVI - XVII)

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Vista do Terreiro do Paço no séc. XVII. Dirk Stoop. Museu de Lisboa



Desde a época dos Descobrimentos que o Terreiro do Paço foi o centro do poder político e económico da capital. Em frente ao Paço da Ribeira, o bulício quotidiano da grande cidade era compassado por negócios, trabalho e lazer, com permanente participação de negros.

Para além dos trabalhos domésticos, os seus dotes para a música e dança e na animação de festas foram sempre muito apreciados nos palácios reais e da nobreza; também em atos solenes e de diversão; em igrejas e procissões.

Muito comuns no século XVI os “escravos charamelas” tocavam instrumentos musicais de sopro nas principais festas e cerimónias.


Músicos Negros. Pormenor dos Painéis de Santa Auta, c. de 1520. Museu Nacional de Arte Antiga

PROCISSÃO A N. SRA. DA ATALAIA, MONTIJO (SÉC. XVIII - XIX)

O rio Tejo não figurava para o africano apenas a escravidão e o trabalho. Desde há muito que também no rio se trilhavam os caminhos da Festa e dos Círios (promessa antiga), em devoção ao culto popular de N. Sra. da Atalaia, na margem sul do Tejo.

Antecedidos por animados peditórios com exibição de cantares e das danças lundum e fofa, os círios dos Pretos Crêolos de Lisboa, dos Pretos do Bairro Alto e dos Pretos de Alfama, deslocavam-se desde o séc. XVIII, em setembro, em barcos enfeitados de flores e animados de música, até N. Sra. da Atalaia.

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Imagem de N. Sra. da Atalaia. Convento de Chelas. Séc. XVI. Fotografia de José Vicente, 2017
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Imagem de N. Sra. da Atalaia do Círio das Alfândegas. Igreja da Conceição Velha. Fotografia de José Vicente, 2017




Tão apertados e unidos uns com os outros, que não somente lhes falta o desafogo necessário para a vida, cuja conservação é comum e natural para todos, ou sejam livres ou escravos: mas do aperto com que vêm sucede maltratarem-se de maneira que, morrendo muitos, chegam impiamente lastimosos os que ficam vivos.

Chancelaria de D. Pedro II. Lei de 18 de março de 1684, IANTT



Vi chegar um navio carregado de especiarias e que, em baixo, no porão, vinha cheio de Negros mouros, homens, mulheres, com os filhos, jovens rapazes e raparigas, de todos os tipos, em número de trezentos.

Lisboa em 1514. Taccoen Van Zillebeke






[…] os lisbonenses, depois de terem começado a traficar nas Índias, assenhoreando-se daqueles povos, fizeram crescer esta cidade de infinita gente, mas gente toda negra.

Da Grandeza e Magnificência da Cidade de Lisboa. Gianbattista Confalonieri, fl. 3





[…] o tambor e a rabeca chamam a atenção dos moradores, que acorrem às janelas e varandas para gozar o espetáculo do lascivo e mesmo frenético Landum.

APDG, Sketches of Portugueses Life, Manners, Costumes and Character, p. 292