Rossio e São Domingos


CONFRARIAS E IRMANDADES (2ª METADE DO SÉC. XV - XIX)

Desde o início da escravatura moderna em Portugal, que os negros de Lisboa procuraram formas de integração social e religiosa. As Irmandades e Confrarias serviram esse propósito, prestando assistência material e espiritual, incluindo o privilégio de resgate de cativos.

A primeira confraria de negros fundada em Lisboa foi a de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, na igreja do Mosteiro de São Domingos (na segunda metade do séc. XV). Para saber mais sobre esta Confraria consulte: http://testemunhosdaescravatura.pt/pt/cronologia/cronologia-geral (1496).

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Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos na Igreja da Graça, depois de 1755. Fotografia de José Vicente, 2017

Entre os séculos XVII e XIX surgiram outras confrarias votivas a N. Sra. do Rosário, N. Sra. das Mercês e N. Sra. de Guadalupe, ou a santos com os quais se identificavam pela condição, origem ou pela cor da pele, como Santo Elesbão, Santa Ifigénia, S. Benedito ou Santo António de Noto.

SUPERSTIÇÃO: AS BOLSAS DE MANDINGA (SÉC. XVII-XVIII)

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Desenho feito por negros no século XVIII destinado a práticas de feitiçaria, 1731. Lisboa, Torre do Tombo, Processo da Inquisição n.º 11 774


A conversão ao catolicismo não anulou a espiritualidade e algumas práticas ancestrais africanas, permanecendo encobertas ou evoluindo para algum tipo de sincretismo com a religião oficial. O uso de amuletos era muito comum entre a população negra da cidade. A partir de finais do séc. XVII parece ter havido predileção pelas Bolsas de Mandiga, que terão resultado da troca de saberes em Lisboa, entre africanos de várias partes do império. Acreditavam que os escritos e ingredientes nelas contidos eram mágicos e o seu uso junto ao corpo, os protegiam das armas e das doenças.

Vista como um ato de feitiçaria, a prática foi muito perseguida pela Inquisição, então estabelecida no Rossio, no local onde hoje está o Teatro Nacional D. Maria II.

O QUOTIDIANO SETECENTISTA NUMA GRANDE PRAÇA DE LISBOA

Nos espaços de convivência e de trabalho – em palácios como os do Duque de Cadaval, do Marquês de Alegrete, de D. Luís de Almada; no Hospital Real e na Inquisição, em oficinas, estalagens e todo o tipo de habitações edificadas em torno da grande Praça do Rossio, centenas de pessoas trabalhavam e circulavam; e segundo o rol dos confessados de 1693, excluindo os menores e os não batizados, só em Santa Justa os escravos ascenderiam ao número de 256.

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O beijinho ao menino Jesus. Aguarela. Zacharie, Felix Doumet, 179(?) - 1806. Museu de Lisboa

Vista do Rossio anterior ao terramoto de 1755. Água-tinta assinada por Zuzarte.  Coleção particular do Dr. Celestino da Costa..jpg

Vista do Rossio anterior ao terramoto de 1755. Água-tinta assinada por Zuzarte. Coleção particular do Dr. Celestino da Costa

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Pormenor do Painel de Azulejos do Palácio Praia e Monforte. Séc. XVIII. Fotografia de José Vicente, 2017

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Hospital Real de Todos os Santos. Pormenor do Painel de Azulejos. Museu de Lisboa







A graça que os suplicantes requerem, de algum modo impede a livre faculdade que os Senhores dos Escravos tem para os venderem, a quem lhes parecer [...]. se verifique somente em que os ditos Senhores dos Escravos os tratem com excessos de castigos corporais, que se façam ofensivos das regras da humanidade; ou quando por ódio e vingança os queiram vender para fora do domínio do Reino.

Parecer da Mesa do Desembargo do Paço a respeito da petição da Irmandade de São Benedito e N. S. da Guadalupe, ereta no Convento de São Francisco da cidade de Lisboa, 3 de março de 1779. IANTT, Maço 2109, doc. 23.



































[…] se lhe achou dentro algumas cabeças de cobra com dentes humanos nas bocas e hum papel escrito com letras e no mesmo pintada uma pintura medonha que a todos causou horror.

IANTT, Inquisição, 1731



























Sendo as suplicantes umas pobres pretas, que não tinham outro ofício mais que venderem ao povo aquele sustento naquele lugar das escadas do Rossio […] Vossa Majestade lhe acudisse e valesse na violência que lhes faziam os ditos alcaides, para que as deixasse vender no lugar das ditas escadas (...) sabido e certo lugar para o povo ir comprar o que as suplicantes vendiam, de cujo lucro pagavam a seus senhores para seu sustento, de seus maridos e filhos e forravam ainda para suas irmandades e liberdades.

Consulta da Câmara de Lisboa, 19 de novembro de 1706. Arquivo Municipal de Lisboa, Arquivo Histórico