Escolas Gerais

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Local do Paço do Infante D. Henrique (atual Pátio dos Quintalinhos à Rua das Escolas Gerais).

Pormenor da Panorâmica de Lisboa. Desenho de Georg Hoefnagel, c. 1565. Gravura inserida na obra de G.Braun e F. Hogenberg, Civitates Orbis Terrarium…, Colonia, 1572


CHEGADA DE ESCRAVOS A LISBOA EM 1445


Em 1445, Antão Gonçalves capturou cinquenta e cinco escravos junto do cabo Branco, perto de Arguim, tendo seguido, segundo Gomes Eanes de Zurara direita­mente a Lisboa, onde chegaram assaz contentes da sua presa. Onze (o quinto) foram entregues ao Infante D. Henrique (no seu Paço) e os restantes vendidos.


Mas qual seria aquele que não filhasse prazer de ver a multidão da gente que corria por ver aquelas caravelas?

Que tantos que abaixaram suas velas os oficiais que arrecadam os direitos d’el-rei tomaram batéis da ribeira, por saber os navios donde eram e o que traziam.

E tantos que tornaram e as novas correram de uns nos outros, em breve espaço ir tanta a gente nas cara­velas, que por pouco as não alagavam!

Nem eram menos no outro dia, quando tiravam os cativos dos navios, e os queriam levar a uns paços do Infante, que são um grande pedaço afastados da ribeira, que de todalas outras partes da cidade corriam para aquelas ruas por onde os haviam de levar.

Por certo, diz o autor desta história (Afonso Cerveira), bem se poderiam ali repreender muitos daqueles, que primeiro falei, que murmura­vam sobre o começo deste feito, que não havia aí entonces algum que se quisesse contar por um daqueles;

Que os clamores do povo eram tão grandes; quando viam levar aqueles cativos em cordas ao longo daquelas ruas, louvando as grandes virtudes do infante, que se algum se quisera atrever [a] falar o contrário, muito em breve lhe conviera de o desdizer, ou porventura lhe prestara pouco, que sobre a opinião do povo, maiormente posto em alvoroço, raramente se acha perdão para nenhum que lhe fale sobre o contrário do que eles entre si trazem fir­mado; nem ainda me parece que podia ser homem de tão mali­ciosa condição que pudesse contradizer tamanho bem, do qual se seguiam tão grandes proveitos.

O infante era em terra de Viseu, donde mandou receber seu quinto; e dos que ficaram, fizeram os capitães sua venda na cidade, de que todos geralmente houveram grande proveito.


Gomes Eanes de Zurara. Crónica dos feitos da Guiné. 1453, capítulo XXXVI.